A divulgação de mais uma edição do Índice de Desenvolvimento da Educação
Básica (Ideb) trouxe à tona novamente discussões sobre a qualidade do ensino no
país. Todos tentam responder quais são as práticas e modelos que fazem uma
escola ter um bom resultado no indicador. Mas, por trás dos números, estão
práticas escolares e condicionantes que o Ideb não consegue mostrar - como, por
exemplo, quem é o público que frequenta aquela unidade e como ele foi formado.
A pesquisa Processos velados de seleção e evitação de alunos em escolas
públicas, do Centro de Estudos e Pesquisas em Educação, Cultura e Ação
Comunitária (Cenpec), indica que escolas de "boa reputação"
conseguem, por meio de práticas veladas, selecionar os alunos que entram e,
principalmente, que vão permanecer na unidade, como mostra a reportagem
"Em busca dos melhores".
Os mecanismos são variados. Um deles, por exemplo, é a consulta ao
histórico do aluno no momento de um pedido de vaga. Ao tentar escolher seus
alunos, as escolas visam a manutenção do que consideram um bom ambiente
escolar.
O estudo conduzido pelo Cenpec entrevistou funcionários que trabalham em
escolas públicas e que estão diretamente envolvidos no processo de matrícula:
secretários, agentes escolares e auxiliares técnicos de educação. Confira,
abaixo, alguns desses depoimentos.
"Em algumas escolas nós sabemos que, se o aluno é da escola X,
[dizem:] eu não tenho vaga, mas se é da escola Y, eu ainda aceito. Então, tem
ainda alguma coisa nisso, em relação ao pseudo-desempenho desse aluno"
"A gente diz assim: ''não fica esperando, porque pode não aparecer
a vaga, vai ser muito difícil de aparecer vaga, porque está superlotado''. A
gente já fala assim para a pessoa não ficar com aquela esperança, e aí já
orienta: ''olha, vai a tal escola, vai a tal outra'' e aí a pessoa não fica
presa naquela esperança de conseguir vaga na escola"
"Se a mãe manifesta, se ela argumenta que "lá tem um ensino
melhor" vem com um argumento bacana, então vai pra lá [o pedido é aceito].
Agora, [se a justificativa é] simplesmente por mudar, aí nós investigamos [o
histórico do aluno] até pra ter um feedback"
"Transferência a gente não tem como avaliar. Agora, de final de ano
a gente tem. Porque, se o menino está sendo transferido no final do ano e mora
no bairro, o que ele tem? É que foi expulso"
"Não, a cor, o sexo, nada disso influenciava. [Quem era aceito] Era
aquele que não ia dar problema para ninguém, para direção, para os outros
alunos, aqueles que você achava que eram mais calminhos"
"A gente liga na escola para ver como é o comportamento do aluno.
Eles não falam: ''não matricula''. Eles falam: ''ah, vocês sabem como é, né?
Ele foi convidado''- a gente não fala expulso - ''ele foi convidado a se
retirar''"
"Quando vem de outra escola, porque às vezes vem de um outro bairro
que a gente não conhece a secretária, a gente abre o sistema para ver como são
as notas, se não tem muita falta, se tem nota vermelha"
"Tem alguns casos, por exemplo, de criança que estudou e foi retida
por falta muitos anos seguidos, foi e voltou por várias escolas, o diretor
acaba barrando sim a volta dessa criança"
"Tem uma família que tem o sobrenome XXX e todos eles têm algum
problema. Os pais não trabalham, querem Bolsa Família, estão todos inscritos
nesses projetos sociais, mas não trabalham, só ficam recebendo realmente as
bolsas. Então todo aluno que chega lá com esse sobrenome já sabe que...
[interrompe]"
"Se é um aluno problema, é passado pelo Conselho Escolar pra ele
ser expulso. Mas hoje em dia eu vejo que a coisa é meio liberada, deu problema,
vai embora. Tipo: ''joga a bola pro outro, não vamos trabalhar com esse
menino''"
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